quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O NuPArq retoma seus trabalhos nesse dia 12/08

O Lamento dos Mortos - James Hillman e Sonu Shamdasani (Editora Vozes)
Quinta e Sexta Conversas

"Loucura é  falta de trabalho"...pag 122


"...a grande descoberta nas profundezas foi a imaginação...Vcê está  em busca de uma alma, e sua alma é imaginação"... pag 120

"...porque então Jung não disse "Eu conheço Deus", ele estava dizendo "Eu conheço minhas experiências". pag133




sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Introdução

James Hillman desfaz. Você adentra seus escritos e uma conversa ou uma discussão vai ocorrer, seja com ele, seja consigo mesmo, seja com um bem talhado sistema de crenças. Teorias prediletas serão viradas de cabeça para baixo, ou serão defendidas com unhas e dentes. Leitores passivos, cuidado: esta obra envolve. Embora sua abordagem não seja sistemática - ele não constrói modelos mentais - suas reflexões são focadas e precisas, iluminando acuradamente qualquer que seja o terreno a atravessar - da patologia à política, da natureza à nutrição, da antiguidade ao Armagedon. Ainda assim, sua preocupação é sempre mais vertical que horizontal. Hillman levanta pedras e revela as estranhas criaturas ali embaixo. Ele localiza as fissuras da estreiteza de pensamentos e preenche seus espaços cegos. Desvelando a sabedoria convencional e os entendimentos codificados, ele abre espaço para novas formas de sermos psicológicos. O desfazer sempre se torna uma abertura. O resultado é uma perspectiva diferente, aquela que aprofunda antes de explicar. O objetivo persistente: devolver psique (alma) à psicologia.

Glen Slater
"Introdução" a James Hillman, Senex and Puer, Uniform Edition

terça-feira, 26 de julho de 2016

...  ( complete esse texto com seu título )


Esses últimos dias estou com uma palavra a perambular acusticamente em mim: “void”. Num primeiro momento creditei essa palavra ao término do livro “beleza e tristeza” do Kawabata que me deixou com uma lacuna, mas que com satisfação “preenchi” para finalizar a narrativa; depois, por conta de um documentário que assisti sobre cineastas japoneses em que a lápide de Ozu não continha nome, datas, somente o ideograma chinês antigo “Mu” que significa “void”, como último desejo do cineasta, que como tal não apreciava narrativas rebuscadas e sim trabalhava o espaço e o cotidiano - “void” de novo; por fim, um TCC que corrigi de uma aluna de artes plásticas, no qual ela fazia um percurso de suas próprias obras e uma delas, que foi baseada em sentimentos opostos, tendo um espaço proposital representado na obra o qual ela nomeou como “vazio”. Não me contentei. As imagens acústicas dessa palavra ecoavam na minha mente, escritas nos lugares, nas pessoas... Ok – disse a mim mesma – Fomos (eu e minha caravana interna) ao dicionário de etimologia, quero saber a raiz, o profundo, o abaixo da terra. Descobri que a palavra “void” vem de “voide” do francês arcaico que se origina do latim “vocitus” (“tornando vazia) que também deriva a palavra “vuoto” (italiano “vácuo”). A palavra “vazio” vem do latim “vacivu” que significa vago. Não me contentei novamente. Li então cada significado da palavra “void”, “vide” e “vazio”, até que encontrei o que estava procurando, um dos múltiplos significados da palavra francesa “vide”: “qui offre des lacunes”. E agora?  Ouvi a voz da minha querida professora de linguística que uma vez disse: “é mais fácil aparar arestas que preencher lacunas”, no caso referindo-se a minha escrita, desde então aprendi a preencher lacunas, como fiz no romance do Kawabata, mas oferecer lacunas?  Imaginei um espaço para uma infinidade (com perdão do pleonasmo) de possibilidades para preencher ou não, transformar  (imagino feito com as mãos em massinha ou argila) ou ainda segurar a angústia do “vazio”. Com esse texto, ofereço lacunas, servidas de preferência com um pinot noir, um vinho poético. 

Por: ReBeKa S.

domingo, 3 de julho de 2016

Heleninha e Hillman

Esse é um pequeno relato de um encontro analítico onde as “permissões” autorizadas por James Hillman favoreceram que ele pudesse acontecer.

Atendendo uma paciente recém mastectomizada, em momento de muita fragilidade, sentindo o impacto da cirurgia e todas as emoções que foram despertando diante do tratamento, qualquer tentativa de elaboração se tornava pesada e difícil.
A única condição que se mostrava possível era o acolhimento e o aguardar. Aguardar o que viesse, o que fosse possível surgir.

E veio... E quem veio foi a Heleninha.

Heleninha entrou no espaço construído na relação terapêutica como a “menina” que precisava chorar, que precisava de colo, que precisava do abraço, do olhar amoroso, da compreensão, da não palavra. E a própria paciente foi quem trouxe a Heleninha, numa consulta onde, ao chegar, me disse “ Hoje quem vai vir para cá é a Heleninha, a coitadinha, a menininha que só quer chorar. Ela é vitima e muito infantil. Por favor, deixe ela ficar aqui até crescer. Sei que ela vai te dar trabalho, te deixar cansada. Mas ela vai crescer. Mas, nesse momento,  ela só quer que cuidem dela, que deixem ela se sentir a coitadinha.”

E assim Heleninha chegou...
Mas está crescendo. Tem chorado menos, conversamos sobre todos seus sonhos, todas as suas vontades de uma vida perfeita. Sua parte “adulta”, muitas vezes, participa desse encontro e diz : “como ela é boba, o mundo não é assim, não funciona dessa forma”. Mas a própria Heleninha responde : “ e dai ? Eu quero sonhar um pouco mais. Me deixe fantasiar. O mundo já foi muito duro comigo. Eu tenho direito de querer colo”.

Dessa forma, Heleninha tem tido espaço para se manifestar. Rimos com ela, damos suavesadvertências nas suas tentativas emnão querer aceitar algumas situações. Mas  está ficando mais fortalecida.

Seu choro é menos sofrido, as risadas aumentaram, trás bolo emimos para si e para sua terapeuta, suas falas estão menos vitimizadas. E já começa a pedir mais firmeza emenos colo.

Obrigado Hillman, vc nos ajudou a sustentar a possibilidade que o acolhimento criativo pode gerar na prática clínica.

Por: Edmea Ganem

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Eliana Atihé, em sua tese de doutorado para a Escola de Educação da USP : Uma educação da alma: Literatura e imagem arquetípica (2006), tece uma teia-trama bastante poética e profunda, na qual mescla Atena, Héstia, Afrodite, Hera, Perséfone,  Hécate, Héracles e Perseu, entre outros divinos gregos, com personagens de Madame Bovary, Decameron e O Morro dos Ventos Uivantes. Recomendo a leitura de seu trabalho para todos aqueles que cultivam a alma.

Por: Ana Célia Rodrigues de Souza

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-21062007-114845/pt-br.php

terça-feira, 7 de junho de 2016

O homem da colina e eu
Quando o conheci, levei algum tempo para saber se gostei ou não.
Havia algo extremamente atraente na sua forma de colocar as coisas, de ajeitar e desajeitar as ideias, de visualizar o mundo, como se me chamasse para dar uma mirada no panorama já conhecido, só que do alto de uma pedra.
Venha, suba aqui, olhe lá embaixo, está vendo? Agora feche os olhos e imagine. Abra os olhos! Mudou?

 Sim, tudo mudou. O chão saiu dos pés e o que eu acreditava tão seguro, desvendado, nomeado e garantido foi virado do avesso. Como um vento que chega e desarruma o cabelo ou faz voar a roupa no varal. A reação no corpo, uma vertigem. Quer dizer que terei que construir novamente, tijolo a tijolo, todo o prédio de conhecimentos que passei anos edificando? Que loucura! Não seria mais fácil deixar o homem falando com os seus e continuar no conforto? Mas quem disse que a alma clama por vida fácil? A alma! Ali todo tempo, na psique. E ele viu! O que, afinal, me atraía naquele homem cuja fala trazia desconcerto e um tanto de angústia? Precisava continuar tentando descobrir.

Uma coisa era imediatamente clara: o seu olhar etimológico para as palavras me encantava. Neste lugar estávamos de mãos dadas.
Sempre amei o modo como mergulhou nos conceitos pela porta das palavras, as separando, dividindo, invertendo partes, buscando raízes, surpreendendo com o óbvio.
Se o estranhamento desconfortante de tirar as coisas do lugar trouxe a perspectiva inicial de um afastamento, a catábase vertical e íngreme no mundo das palavras me puxou como um ímã para perto, ao alcance da pele, do hálito, do pêlo eriçado.

Li “O mito da análise” em 1989, seguido de “Psicologia arquetípica” e outros muitos textos, mas lembro que o homem da colina me ganhou com “O código do ser”. Foi com ele que a imagem da semente do carvalho se plantou em mim com uma potência que imediatamente lançou raízes, me mantendo fincada em seu território.
Lembro-me de ter levado o livro comigo em um feriado e ficar dividida entre torcer para chover, ou para o sol brilhar e puxar todos para fora, para longe de mim, eu já muito bem acompanhada.

Em paralelo a esse encontro, outro trajeto foi se fazendo, no meu caminhar pela Mitologia grega.
A paixão pelos mitos foi se intensificando a cada leitura, discussão e contato com deuses, heróis e seu universo mágico.
Como profissional da psique, fui importando um cenário mítico para a prática clínica e a vontade de aprofundar, escrever, me debruçar sobre temas, fazer conexões só ganhou espaço em mim. Quase sem perceber, trilhava uma passagem que também levava a uma perspectiva nova e instigante; uma sensação semelhante ao peristaltismo vivido nas colinas.

Formulei, juntamente com colegas, a ideia de regências mitológicas no funcionamento tipológico das pessoas e passei a tentar compreender como isso se transformava no meu sangue, no meu olho, na minha saliva, minha respiração.
A leitura de Hillman sempre aconteceu ao longo deste tempo. No entanto... Imagine uma roda, uma dança em roda. Estamos cantando e dançando todos juntos até que a pessoa à minha esquerda sai, mas antes junta a minha mão, que antes segurava, com a mão da pessoa ao seu lado.
Assim foi. Algo orgânico sucedeu no tempo e espaço. Notei que as ideias que lia em seus livros se alimentavam na Grécia antiga; referendava-se sempre aos deuses no plural e com “d” minúsculo; referia-se ao politeísmo, à mitologia como olhar, como atitude.

A mão que eu agora segurava e que acolhia a minha era macia e quente, firme e delicada. O sentido já havia, mas ganhou músculos e cor. Foi um novo encontro, como um segundo casamento, em que se deixa de lado supérfluos e implicâncias de menor relevância para se sorver o essencial. Um segundo casamento com o mesmo parceiro, só que diferente, ainda mais par.

A partir desse momento, ao me ver nos vizinhos campos da mitologia e da psicologia arquetípica compreendi que estava em casa e o desconforto da desconstrução ganhou outra roupagem: o lúdico. Escalar as colinas para ver a paisagem de outro ângulo se transformou em convite a aventura.
O que ele vai aprontar agora?O que vai desembrulhar? Vamos brincar?

Agora ouça:
Hill
Heal

Quando Hillman está por perto, na sua figura irreverente, nas suas perguntas pontudas e colocações traquinas a minha alma se cura, amadurece e sorri.

São Paulo, 07 de outubro de 2015
 Sylvia Mello Silva Baptista