Parte do
prefácio de Thomas Moore sobre os escritos de Hillman no livro
“A Blue Fire”
A psicologia arquetípica não é uma psicologia de arquétipos. Seu papel
principal não é o de fazer associações entre temas da mitologia e da arte com
temas da vida cotidiana. Mais do que isso, seu papel é o de ver cada fragmento
da vida e cada sonho como mitologia e poesia. Um conselho municipal pediu a
James Hillman que comentasse seu plano de construir um lago recreacional.
Hillman compreendeu os anseios imediatos advindos desse plano; porém, ele
levantou uma questão que vai além do seu sentido literal, percebendo a
necessidade que a cidade tem de hidratar sua alma. O fato de não haver piscinas
para diversão demonstra que a cidade tem a tendência de concretar qualquer
fantasia que apareça. Há pouca margem para a fantasia, nenhuma fluidez de
imaginação, poucos prazeres afrodíticos autênticos com relação à água. A alma
deste lugar está sedenta. Ela precisa de águas mais profundas e mais sutis do
que um lago pode proporcionar.
Todo o trabalho de Hillman – teorizar, fazer análises culturais, clinicar
– pressupõe o que ele chama de uma “base poética da mente”. Isto significa uma
psicologia enraizada não na ciência, mas na estética e na imaginação. Ao ver
tudo como poesia, Hillman liberta a consciência do invólucro duro e, ao mesmo
tempo delgado, do literalismo, revelando a profundidade da experiência. A alma,
segundo ele, transforma o evento em experiência. Mas é a imagem que é experimentada,
não o literalismo. A cidade sente sua própria falta d’água e literalmente tenta
construir um lago. Somente uma mente poética poderia penetrar esse literalismo
e fazer um diagnóstico preciso. Essa visão poética constitui a psicologia
defendida por Hillman.
Este trabalho é chamado arquetípico, como adjetivo, porque ele busca as
imagens nos eventos que proporcionam significado, valor e uma variada gama de
experiências, esforçando-se para alcançar profundidade, ressonância e textura
em tudo o que analisa. Para os filósofos gregos antigos, archai eram os elementos básicos dos quais a experiência é feita. A
psicologia arquetípica utiliza a visão penetrante da imaginação para perceber
esses archai, que são as fantasias fundamentais que acendem toda a vida.
Arquetípico significa “fundamentalmente imaginal”.
A principal maneira com que Hillman salva a alma é preservando suas
manifestações, e uma dessas manifestações é o desejo de compreender a si mesma.
A psique, segundo Hillman, pede por um logos,
e este é o principal sentido da psicologia. Metapsicologia, ou teoria, para
Hillman, não constitui a busca pelo significado em um lugar além do próprio
imaginário da alma; este constitui apenas um dos caminhos da imaginação que
servem à psicologia. Ele também é poesia. Conceitos e idéias psicanalíticas
precisam serem ouvidas como expressões da imaginação e lidas como metáforas. E
essa abordagem conduz a um processo terapêutico da própria psicologia,
lembrando-a que ela não é uma ciência, uma filosofia moral ou uma disciplina
espiritual. É, simplesmente, uma atividade imaginativa da alma.
É anti-psicológico, portanto,
reduzir imagens a conceitos. Quando afirmamos que cobras e cajados são símbolos
fálicos, matamos as imagens. Quando chamamos todas as figuras dos sonhos
femininos de animas, congelamos essas personalidades em uma abstração. Ao invés
de forçar as imagens para dentro de conceitos fixos e confinadores, Hillman
quer que nos deixemos levar pela força das imagens. Ao invés de interpretar um
sonho, Hillman nos convida a deixar que ele nos interprete. Essa abordagem
confere à imagem prioridade absoluta sobre as compreensões e aplicações do ego.
A idéia de uma base poética da mente é radical, movendo a conciência do heróico
para uma postura mais receptiva e maleável.
Boa parte do trabalho de análise arquetípica tem como objetivo salvar e
preservar as imagens. O analista fica atento à tendência do indivíduo ou da
sociedade de honrar suas posições interpretativas enraizadas em detrimento das
imagens, e de ter uma postura moralista contra as imagens quando elas parecem
ir contra os valores padronizados e os sentimentos confortáveis.
Uma vez que a imaginação é a atividade mais primária da alma, a
psicologia precisa ser cuidadosa em sua metodologia com a linguagem. Hillman
trata as palavras como seres, emissários, não como ferramentas ou funções. Ele
censura o nominalismo em todas as suas formas – ou seja, a tendência de fazer
com que as palavras signifiquem o que queremos que elas signifiquem. A
psicologia profissional está cheia de palavras que há muito tempo perderam sua
ressonância imagística e se tornaram categorias vazias na quais depositamos
comportamentos e personalidades.
Hillman chega a ponto de dizer que palavras são pessoas. Elas falam, nós
ouvimos. As palavras têm integridade, suas próprias histórias e personalidades.
A imaginação vislumbra a alma até mesmo por meio de nossas palavras. Portanto,
ler Hillman já é um empreendimento psicológico e até terapêutico, já que ele
retira a mente de suas convicções fixas por meio da evocação de suas fundações
poéticas.
Ver através do literal, passando pela imagem, significa vislumbrar a
alma. Nesse sentido, a psicologia arquetípica é uma redundância. Toda
psicologia baseada na estética é arquetípica. A psicologia pode conectar-se à
alma quando a alma é percebida de maneira apropriada através da imagem.
Portanto, pode haver mais psicologia nos campos da arte e da literatura do que
na psicanálise.
Em um ensaio sobre a psicologia da Renascença, Hillman tomou emprestada
uma idéia de Marsílio Ficino, o Platonista do século XV, que trouxe uma
inspiradora base filosófica para pintores e poetas da época. Ficino disse,
segundo a interpretação de Hillman, que nós precisamos de uma educação que vá na
direção contrária das nossas tendências ao naturalismo e ao literalismo. O
trabalho de Hillman vai ao encontro dessa contra-re-educação, o que significa
uma mudança perturbadora no olhar, que deixa de se voltar para o que parecia
natural e se volta para o reino alternativo da imagem. O literalismo, em
qualquer campo ou empreitada, é relutante em “largar o osso”. Portanto, Hillman
se agarra à sua contra-re-educação em psicologia com obstinação e ardor,
transformando em psicologia manipulações médicas voltadas à mente e aplicadas à
psique, ao mesmo tempo em que ele define esta psicologia – arquetípica,
imagística, estética e poética.
REFERENCIA BIBLIOGRAFICA:
Hillman, J “A
Blue Fire”: Selected Writings by James Hillman
New York: 1989
HarperCollins Publishers
tradução de Renata
Quirino Sousa


Um comentário:
Que maravilha de artigo ❤️
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